A idiota
Desisti de escrever. Quando penso em escrever só me veem palavras rimadas ou palavras rasgadas. O melodrama do que não é belo, mas aparenta ser doce, a fúria da raiva. A vontade de socar alguém, a vontade de berrar como um animal, sou um animal. Perdi as contas de quantos vídeos fofos sobre leoas eu vi, falando sobre serem mães que protegem seus filhos, e toda mãe é leoa, vira leoa, e é lindo. Não é lindo. Não posso arranhar ou morder alguém como uma leoa, nem para me acalmar, nem para proteger meus filhos. Tenho de mostrar o quanto sou civilizada e sei me comportar muito bem em sociedade, e reprimir o filho que morde. Queria ensinar a morder e matar. O gosto do sangue na boca após arrancar a orelha de um qualquer que me faz ofensa. Está vendo caro leitor, te chamo de caro, mas arrancaria suas orelhas na mordida. Assim são meus textos. São textos que se formam diferentes, e não encontro o meio termo. Tudo parece vago e idiota. Tudo é idiota.
Talvez minha vida pareça idiota e acho que é isso mesmo que ela é. A gente cresce acreditando que é, ou vai ser algo especial, e quando já estamos crescidos e velhos e ainda acreditamos, somos idiotas. Desculpe leitor, transformei o texto em nós, para parecer mais bonito, para o tornar mais universal, mas ele é meu mesmo, só meu. Nem sei se todo mundo é assim. Eu não me acho idiota, eu sou. Cresci assim, nunca ninguém me disse que seria diferente, porque cresci em torno de gente que se achava não idiota, gente que se achava especial. Deu no que deu, uma idiota com consciência de idiota. Sinceramente não sei se isso é bom ou ruim, eu acho que é bom, mas assim não chego numa altura da vida achando que possa ser especial. E é isso que muita gente acredita. Tem gente que morre especial, que trágico.
Imagino a fila para o julgamento, à direita, pessoas especiais, à esquerda, idiotas por favor. Ninguém se dirige à esquerda e chega lá em cima na porta o anjo pergunta: o que te faz especial? Cadê a consciência, o que será que respondem as pessoas? Não sei, irei diretamente à esquerda. Imagino um tapete brilhante e um cartaz: idiotas assumidos não precisam de julgamento, parabéns. Que palhaçada. A tentativa de escrever me leva aos céus, realmente.
É um delírio, e não um bom delírio. O bom delírio traria algo de bom. Releio as palavras acima e não acho o Bom. Ser bom é o que estraga tudo, precisar ser bom. Se não consigo ser boa, como meu texto será bom?




Acho que um idiota com consciência de ser idiota já demonstra o quanto “não idiota” ele é. De qualquer forma, amei quando o texto mudou para nós. Estou na fila do julgamento também