A flor do lago
Era uma vez uma menina que morava perto de um lago, pequeno e bonito, no meio de uma área muito bela, cheia de árvores e plantas. Lá perto não moravam muitas outras crianças, e ela mesma não tinha irmãos. Quando não estava na escola passava muito tempo perto do lago, colecionava pedras e todos os tipos de coisas interessantes que achava por lá. Guardava tudo num tronco oco que um dia tinha sido um pedaço de árvore.
Conforme ela foi crescendo, as outras crianças da escola cada vez mais falavam que ela era muito estranha, e calada que era, não falava com ninguém sobre isso. Ela não se achava estranha, mas sabia que talvez o único lugar que ela se sentia bem era lá, próxima ao lago, em silêncio, ouvindo a natureza e conversando consigo mesma e com os pequenos insetos e animais que encontrava.
Tudo corria bem, mas parece que quanto mais os dias se passavam, mais as crianças deixavam de serem crianças e tornavam-se encrenqueiras, querendo parecer melhores que os outros, e passaram a perturbar a menina ainda mais, chamando-a de feia, estranha, e que era melhor ela ficar lá no meio do mato mesmo, que era o lugar dos animais como ela, que nem falava direito.
Até que um dia ela resolveu não ir à escola e sentou-se perto do lago, olhando para o fundo, claro e límpido, pensando, se valia mesmo a pena voltar para a escola, se valia a pena voltar sequer para casa. Foi aí que ouviu uma voz, e olhou para o lado e viu um senhor, encostado numa árvore, olhando para cima, e falando, já viu como o céu está bonito hoje? Como ela não estava muito contente com a situação em que se encontrava, falou, não costumo olhar para cima, hoje estou olhando somente para baixo, para o fundo do lago. O senhor então olhou para ela, e de relance ela viu os olhos dele brilhantes que pareciam sorrir, mas ele não estava sorrindo. Ele parecia muito cansado, até exausto, o corpo todo contorcido, mas ela se sentiu um pouco melhor do que estava, não olhou para cima, nem olhou muito para o senhor, mas se sentiu melhor o suficiente para querer voltar para casa.
No dia seguinte ainda não foi à escola, a noite foi dura e ela tinha pesadelos com água, e lembrava do lago, mas de repente via os olhos brilhantes do senhor que se assemelhavam a uma luz, e o pesadelo deixava de ser um pesadelo, e passava a ser um sonho do lago. Alguns dias se passaram com o mesmo sonho, e todos os dias ela ia até lá, e olhava com tristeza para o fundo, e todos os dias o senhor aparecia lá, encostado na árvore, olhando para o céu. Muitos dias decorreram dessa maneira, e nenhum deles falava nada.
Ela aguentava a situação na escola, e até já tinha acostumado a ser a estranha, mas a tristeza ainda morava nela, todo dia olhava o fundo do lago, e num dia realmente ruim, ela voltou para casa e seus pais perguntavam o que tanto ela fazia no lago, e ela explicou que ela ficava lá triste, porque falavam na escola que ela era feia e estranha, e os pais que diziam já estar cheios de problemas para resolver falaram, é, talvez eles tenham razão, você é mesmo estranha e trate de ser mais como os outros que já temos problemas suficientes e não quero ninguém da escola aqui falando que você é mais um problema.
Neste dia o sonho foi só pesadelo, ela caiu no lago e não conseguia voltar, nem o brilho dos olhos do senhor iluminou o tenebroso desenrolar de imagens e o sentimento de que ela nunca mais ia conseguir sair de lá. Ela acordou toda suada como se estivesse realmente estado no lago, saiu da cama, calçou os sapatos e correu para o lago.
Chegando lá olhou para o fundo já com um peso no peito, como se estivesse presa lá. Mas para sua surpresa, no fundo do lago tinha uma flor, linda, que saia da terra calma, e permanecia na água, tal como se fosse na terra. Aquela imagem deixou a menina muito curiosa, e claro ao mesmo tempo intrigada, curiosa para ir lá tocar na flor, descobrir como pode uma flor nascer no fundo do lago de um dia para o outro e lá estar, linda. Foi então que ouviu o senhor dizer, olá, já olhou para o céu hoje? E a resposta da menina não foi a mesma que da outra vez, ela simplesmente respondeu que hoje ela estava fascinada pela flor no fundo do lago e por isso não tinha olhado para o céu. Ao escutar suas próprias palavras ela se espantou, sentiu a mesma sensação de olhar para os olhos do senhor, mas sem o fazer, sentiu isso ao dizer as palavras, e quando olhou ao redor para procurá-lo, ele já não estava mais lá.
Dia após dia ela ia ao lago para apreciar a flor, e o senhor nem mais aparecia por lá, e se aparecia, ela não percebia. Preocupava a menina se a flor ainda estaria lá, todo dia, e ela estava, aparentemente nada mudava, a flor parecia estar imune a qualquer coisa.
Até que um dia ela acordou e o tempo estava horrível, chovia tão forte que as gotas da chuva batiam no chão de terra formando buracos. Num primeiro momento ela respirou fundo a achou muito agradável o cheiro da chuva, da terra molhada, das plantas molhadas. Mas o desespero veio quando se lembrou da flor, saiu correndo e quando chegou ao lago não enxergava nada, as gotas da chuva impediam-na de ver o fundo do lago e ela se desesperou sem saber se a flor estava lá, o que aconteceria com ela com essa chuva, e o sentimento de não poder ver a flor foi de extrema tristeza, uma tristeza que ela nunca tinha experimentado antes, que fez ela ficar ali, chorando tão forte quanto a chuva, por horas, encharcada, até que perdesse os sentidos e desmaiasse à beira do lago. Quando acordou estava em sua cama, estava quente, debaixo dos cobertores, porém assim que abriu os olhos a tristeza voltou e aquele sentimento ruim pressionando seu peito. Seus pais preocupados não falaram muito, mas deram o carinho que achavam que ela precisava, e quando ela adormeceu novamente, não teve sonho algum.
No dia seguinte acordou com o raio de sol que entrava pela janela, e o céu ela viu, límpido azul com nuvens que pareciam de algodão. Por alguns minutos parecia ter esquecido da flor, mas ao se lembrar, não teve mais aquela sensação ruim, lembrou da beleza da flor e do dia da chuva, mas ao olhar para o céu sentiu algo que não havia sentido antes, como se um leque se abrisse, ela percebesse que o céu era também belo, e que olhá-lo era tão bom quanto olhar para a flor do lago.
Então calmamente ela se encaminhou para a porta e a passos tranquilos foi ao lago, observando tudo pelo caminho, lembrando-se até do tronco da árvore e sua coleção de pedrinhas, ela parou, tomou um tempo para apreciar, e continuou. Pensou, nossa, faz tanto tempo que fiquei obcecada com aquela flor, que até esqueci dessas outras coisas que tanto gostava. Ao chegar ao lago, olhou para baixo e viu a flor, ela estava lá, bonita como antes, porém não tão brilhante, parecia não tão linda, sem aquela capacidade de atrair concomitantemente o olhar e de impulsionar a vontade de joga-se ao fundo do lago que ela tinha tido anteriormente. Lá estava a flor, e ela sentiu-se bem, por vê-la, mas após alguns minutos olhou para a árvore, e viu o senhor, que olhava hoje para a flor, e não para o céu. A menina perguntou: o senhor já olhou para baixo hoje? Ele respondeu, sim. Ela falou, eu olhei para o céu, ele está realmente bonito. O senhor concordou, e acrescentou, realmente, hoje o céu está muito bonito, e a flor no lago também. Nem parece que ontem ambos pareciam feios. A menina perguntou: quer dizer que quando chove o céu e a flor do lago ficam feios? O senhor respondeu, eles podem até parecer feios, afinal o céu estava cinza e a flor estava debaixo de águas turvas. A menina pensou um pouco e falou, mas sabe, eu não acho que eles estavam feios, acho que eles só estavam tristes. O senhor concordou, seus olhos brilhantes pareceram dar uma piscadinha para a menina, que sorriu.


